O Desafio do Capital dos Recursos Humanos

O Desafio do Capital dos Recursos Humanos

Por: Gociante Patissa

Recebi há já uns mesitos o desafio de colaborar no projecto do site da Editora Acácias, chancela que dá à estampa não só obras literárias, mas também de natureza didáctica, com a gestão de recursos humanos (RH) incluída. Aceitei de imediato, precisamente por dominar quase nada da área. Parece paradoxo, e até é, mas um paradoxo dos bons. É do meu ser adepto da transversalidade e de uma abordagem interdisciplinar em quase tudo.

Nos últimos dez anos, com fornadas de licenciados lançados ao mercado, já se ouve falar mais de RH num prisma metódico. Mas e antes, como é que era? O profissional de RH (equiparado ao financeiro e ao logístico) no senso-comum era a encarnação do oportunismo e da arbitrariedade, temido pelos demais colaboradores. Já digo porquê.

Introduzo uma do nosso anedotário. Vamos, antes, à contextualização. Durante as três décadas do pós-independência, o serviço militar para ingressar nas Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), do governo, era mais obrigatório ainda do que hoje, no auge da guerrilha contra as Forças Armadas de Libertação de Angola (FALA), da Unita. É a nossa história. Montavam-se rusgas em pontos vitais de acesso.

A acção coerciva incidia sobre os abrangidos, desertores e refractários, portanto maiores de dezoito anos. Na prática agia-se indiscriminadamente e com violência. Menores corpulentos eram metidos no barulho. Já se costuma dizer que a primeira vítima de uma guerra é a lei, certo? Um irmão e um tio meus, que viviam no Lobito, passaram quatro anos confinados e não podiam visitar a cidade de Benguela (35 km). Bastava ver um fardado (com boina dos ST, pior) para desatar a correr desesperadamente pela vida. Povoava na mobilização popular em Umbundu um cântico a dizer que “se eu for moça não me caso com um civil; o civil é tampa de jarro”, isto é, a qualquer momento parte.

Conta-se que dois militares vão atrás de um abrangido. O civil galga, no máximo das suas forças, qual coelho fugindo de um leão. Enquanto corre, passam-lhe pela cabeça as memórias do primo que morreu na frente de combate, do vizinho que voltou amputado, das viúvas. Os tropas fazem disparos ao ar para desencorajar a fuga, em vão. Já contam quinze minutos, o civil sempre a levar vantagem. Aí um deles grita: “Pára só, ó jovem, vais ser Chefe dos Quadros!” E eis que, como magia, o jovem se entrega. Surra!

Venho debitar sobre a relação entre os RH e a cultura, aqui cultura entendida como conjunto de práticas, crenças e valores, representados por signos materiais e imateriais de uma determinada sociedade. Uma provocação que o tema sugere é desde logo sondar como é visto o papel de RH, que vem do século XX. Não se pode olhar para o progresso do sector sem a sua vinculação ao passado recente, já que em termos de orientação vocacional vamos mal em Angola. Muitos chegaram esta área por casualidade, tendo desenvolvido (quando possível) competências com o passar do tempo.

Retomemos a lenda do abrangido e o isco de vir a ser dos RH. Será que cederia se lhe sugerissem a infantaria, a artilharia, a desminagem? Que motivação o traiu? Pode, por exemplo, ser da existência de modelos de prosperidade por parte de gente dos RH e a expectativa de “trocos extras” em processos de recrutamento e selecção. Concluindo, o desafio capital dos RH ainda é ético, fadada que está a existência humana ao trabalho.

Gociante Patissa | Catumbela, 27.12.2018 – 26.05.2019 | gociantepatissa@gmail.com
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Foto de Ree no Pexels

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Editora Acácias

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