Angola, Aprenda Com A História_O Desempenho De Um Sector Comercial

Angola, Aprenda Com A História_O Desempenho De Um Sector Comercial

COMO PROSPERAR ENQUANTO NAÇÃO DE  REVENDEDORES?

Por: António Kamané

O sector do comércio ou mercantil, constituído essencialmente por actividades económicas de compra e revenda de mercadorias, é muito importante, porque além de ser um grande gerador de empregos, incentiva a produção nacional e permite a exploração das vantagens competitivas no mercado internacional. Ou seja, permite, por meio do excesso das exportações sobre as importações, melhorar o saldo da balança de pagamentos do país, criando assim, por meio das margens positivas, um maior impulso para o seu crescimento económico. Observando o panorama empresarial de Angola, notamos que o mesmo é maioritariamente constituído por negócios do sector do comércio. Segundo o Anuário de Estatísticas das Empresas nos anos 2013 e 2016, do Instituto Nacional de Estatísticas de Angola (INE), em 2016, 50,3% das empresas angolanas tinham como actividade o comércio a grosso e a retalho, ou a reparação de automóveis e motociclos. Em outras palavras, a maior parte das empresas angolanas dedica-se à actividade de compra de mercadorias para a sua posterior revenda, sem passar por qualquer processo de transformação industrial. Porém, embora as empresas do sector comercial existam em maior número (ou Frequência), a sua Contribuição para o PIB é geralmente inferior à contribuição do conjunto das empresas dos sectores industrial, agrícola e afins (actividade produtivas que envolvem extracção e/ou transformação de produtos, excluindo as indústrias petrolífera e diamantífera) e que existem em menor número no país. Em 2016, por exemplo, segundo o Relatório Económico de Angola 2016, do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola (CEIC), as empresas dedicadas a actividades comerciais (empresas do sector comércio) contribuíram com cerca de 13% para o PIB, ao passo que o conjunto das empresas voltadas para as actividades de agricultura, pecuária, pesca e indústria transformadora (excluindo o petróleo, diamante e afins), representando apenas 8% do total de empresas existentes no País, contribuíram com cerca de 14%. Isso conduz-nos a um conceito a que, aqui, designaremos por “Capacidade Contributiva do Sector”, o qual nos permitirá tirar ilações sobre a importância, a relevância e ainda sobre a eficiência de um sector numa economia.

Capacidade Contributiva do Sector (Rácio Contribuição Frequência)

A Capacidade Contributiva de um sector deve ser apurada não só pela sua participação relativa na composição do PIB (a sua Contribuição), mas também, através da relação entre esta Contribuição e o peso relativo de empresas desse sector (em termos de número de empresas) no total das empresas em actividade no país (a sua Frequência). Assim, a mesma pode ser apurada através de um rácio entre a Contribuição e a Frequência. Isto é, um Rácio Contribuição/Frequência (RCF). Sempre que a Frequência de um sector é muito elevada (ou seja, o número de empresas que o constituem é muito elevado), mas a sua Contribuição é muito baixa (isto é, contribuem muito pouco para o PIB), presume-se que a importância da Angola, aprenda com a história, como prosperar enquanto nação de revendedores – actividade em causa é muito reduzida, ou que (não se tratando de importância reduzida), a eficiência das empresas que o constituem é muito fraca e estas não estarão a contribuir o suficiente. Assim, a sua Capacidade Contributiva é baixa (caso do sector Comércio em Angola). Nesses casos, o RCF é inferior a 1. De contrário, se a Frequência do sector é muito baixa, mas a sua Contribuição é muito elevada, então presume-se que a sua importância é muito alta, ou que as empresas que o constituem são muito eficientes (caso do sector petróleo e gás), ou ainda que há outros sectores que, provavelmente, não estão a contribuir como deviam. O que faz com que a sua Capacidade Contributiva seja alta. Ou seja, o RCF é superior a 1. Portanto, sempre que há uma grande disparidade entre a Contribuição e a Frequência, o rácio difere muito de 1. No limite, quando não há grande discrepância entre a Frequência e a Contribuição, está-se numa situação de equilíbrio, em que, presumivelmente, empresas eficientes estão a gerar os rendimentos que se esperam das suas actividades e do número que elas representam no conjunto de empresas do país. O RCF, nesses casos, é igual a 1. Ou seja, as empresas do sector representam, por exemplo, cerca de 30% do total das empresas em actividade no país e a sua produção representa cerca de 30% do PIB. No entanto, os casos em que o RCF é igual a 1 são situações mais ideológicas do que reais e são mais uteis para efeitos de análises, a semelhança de outras situações, tais como: RCF = 100 (onde a Contribuição é igual a 100% e a Frequência é igual ou menor que 1%), ou ainda RCF = 0 (onde a Contribuição anda muito próxima de 0% e a Frequência, muito próxima de 100%). Portanto, são situações que não se espera verificar, com facilidade, na realidade.

O que fazer quando a capacidade contributiva é baixa? Como potenciar o sector comercial?

A resposta à esta questão nem precisa de ser inventada. Ela está bem à nossa disposição. Basta olharmos para a história. Desde os primeiros anos da nossa existência enquanto país independente, tem sido demonstrado que há claramente a consciência de que é necessário apostar-se inicialmente nas actividades produtivas e transformadoras. Aliás, um dos chavões da nação é “a agricultura é a base e a indústria é o factor decisivo”. E hoje, um pouco por várias intervenções de entidades ligadas ao empresariado, se vão ouvindo alertas sobre a necessidade de se inverter o quadro, isto é, sermos mais produtores e menos meros revendedores. Não obstante, a prática anda há milhas de distância das intenções e há anos luz dos discursos. As sociedades cujas empresas tendem a se dedicar maioritariamente à compra e revenda de produtos são, historicamente, consideradas, sociedades ou comerciantes. E não há nada de errado nisso, aliás, basta rever a importância do comércio. Há até nações muito prósperas cujo principal sector de actividade é o comercial. E nós, com o panorama empresarial que apresentamos, também pretendemos ser uma nação próspera. Mas para consegui-lo há princípios a observar. Há uma certa disciplina de orientação e planeamento da economia que conduz a tal desiderato. Até porque, como explica a ciência económica, a medida em que a economia cresce há uma tendência de o número de empresas comerciais se tornar maior que o número de empresas produtivas. E isso com reflexo directo nas suas capacidades contributivas para o PIB. O que já vimos que não é o nosso caso. Um dos principais exemplos de prosperidade através do comércio, podemos buscar nos primórdios da civilização. A Fenícia. Aliás, é interessante quando exemplos muito antigos, ricos em simplicidade e objectividade, podem ainda ser aplicáveis e seguidos na actualidade. A Fenícia era uma nação muito próspera que dominou durante os anos 1500 a 300 A.C, o comércio marítimo no mediterrâneo e não só. A sua principal actividade era a mercantil e eram conhecidos como exímios comerciantes. Porque é que eles, sendo comerciantes, prosperaram de facto? O que é que eles faziam que nós os angolanos devemos também procurar fazer, se quisermos alcançar as nossas aspirações?

7 lições a aprender dos fenícios

Segue abaixo as lições a tirar do exemplo dessa antiga civilização:

    1. Tiravam de dentro para fora – para o enriquecimento e para manter o fluxo de caixa positivo. Exportar mais do que importar. Ter mais receitas e recebimentos do que custos e pagamentos. Portanto, grande parte do exercício fenício consistia em ir vender fora, independentemente de onde tivessem adquirido o produto. Nós os angolanos, grande parte do nosso exercício consiste em ir comprar fora, para vender dentro. Assim é muito difícil ter saldos positivos na balança de pagamentos.
    2. Produziam o que vendiam – um comerciante próspero não precisa necessariamente de produzir o que vende. Mas quando isso acontece ele conhece certas vantagens, tais como; tem um melhor controlo de qualidade sobre o produto final, sobre os custos de produção e ainda gera emprego internamente. Assim, os fenícios produziam produtos que eram muito apreciados pelos seus clientes e produziam-nos à medida certa. Além de capricharem para o agrado dos compradores, eles detinham o know-how que os permitia o atendimento imediato sobre questões que requeriam o suporte do produtor. O comércio, aí, surge como resultado do excedente da boa produção e da procura dos consumidores externos. Não há inversão da pirâmide. Com os angolanos, não. O comércio não assenta numa base produtiva ou transformadora. Apenas revendemos e, além de não termos qualquer controlo sobre a qualidade e custos, em muitos casos não temos o expertise (perícia necessária) para atender o cliente no que toca aos serviços pós-venda, como manutenção e outros. Assim não há como fidelizar o cliente.
    3. Utilizavam os seus próprios meios – no exercício das suas actividades, os fenícios não só vendiam maioritariamente os seus próprios produtos, mas também utilizavam os próprios meios. Eles construíam os próprios navios, por exemplo, e faziam-nos de acordo às suas necessidades. Isso tinha ainda a vantagem de promover o desenvolvimento da indústria nacional de lhes permitir não só serem fornecedores de produtos de consumo imediato para as outras nações, como também de meios ou equipamentos de produção. Nós os angolanos, não. Quando desenvolvemos uma actividade, quer comercial quer produtiva, geralmente os meios ou equipamentos de produção que utilizamos são importados. Assim não há independência económica, até porque os custos de manutenção são elevadíssimos. Angola precisa aprender com a história, como prosperar enquanto nação de revendedores.
    4. Apostavam a sério na formação de quadros – os fenícios repararam que para que todo um sucesso fosse possível, era necessário desenvolver-se competências internas. Por isso, além de formarem, incentivavam, valorizavam e assim conseguiam reter os seus quadros, conhecidos como exímios artesãos, comerciantes e navegadores. De modo que o principal activo dessa nação era, na verdade, a competência dos seus quadros. Nós os angolanos precisamos de trabalhar muito nisso, precisamos de rever a formação no que toca ao tipo e à qualidade, precisamos de rever a política de retenção de quadros. Enfim, nesse âmbito precisamos de trabalhar a sério mesmo.
    5. Tiravam o melhor partido das suas condições geográficas – até as condições menos favoráveis devem servir para uma nação se tornar mais empreendedora (os europeus só partiram para as descobertas por causa da falta de recursos naturais, os japoneses, igualmente.). Os fenícios tiveram de se tornar grandes comerciantes e produtores, porque o seu solo era montanhoso e não facilitava o desenvolvimento da agricultura. Mas, o que foi que eles fizeram? Aproveitaram o mar e outros recursos naturais em que o seu território era rico (apostando no artesanato, ourivesaria, etc.). Eles não vendiam os seus produtos como matérias-primas, apenas. Transformavam-nos, antes, em produtos acabados e diferenciados, só depois os vendiam, já com valor acrescentado. É isso que uma nação empreendedora faz: aproveita as vantagens e as desvantagens. Nós os angolanos só temos vantagens, praticamente: mar, temos, rios, temos, madeira, petróleo, terra para agricultura, ferro, algodão… enfim. Temos tudo. Mas não tiramos o menor proveito.
    6. As cidades tinham livre arbítrio económico – as economias prosperam melhor quando (dentro de um certo limite) as regiões que as compõem conhecem uma certa independência económica e, atendendo certas regras, concorrem para obter melhores rendimentos. O mundo de hoje é rico em exemplos desse modelo, como os EUA, o Brasil, etc. Em outras palavras, a economia para prosperar precisa de um certo grau de liberdade para respirar, para agir por si, para ganhar carquejo, para desenvolver competências internas, para se “extroverter”, etc. Nós os angolanos, a nossa nação precisa de se esmerar nesse exercício;
    7. Controlavam a fonte do negócio por fim, notemos que, já naquele tempo, os fenícios, enquanto nação cuja principal actividade era o comércio e cujo crescimento assentava nessa actividade, já sabiam da necessidade do controlo sobre a fonte. Ou seja, com o domínio dos meios (recursos, produtos, equipamentos e pessoas) tinham o controlo sobre a fonte do negócio e controlavam assim o risco de os seus compradores adquirirem os produtos sem ser por seu intermédio. Eles guardavam, inclusive segredo sobre as rotas de navegação que descobriam. Reza a história que depois dos fenícios, nações do mundo árabe também prosperaram como comerciantes, mas o facto de não terem controlo sobre a fonte levou a que essa prosperidade não durasse tanto tempo (basta ver que os europeus esforçaram-se para chegar à índia, com o intuito de se livrarem da dependência desses povos do mediterrâneo e passarem, eles próprios, a adquirir os produtos a partir da fonte. Nós os angolanos, enquanto comerciantes, verificamos que os negócios que fazemos geralmente decaem pelo facto de os nossos compradores ou concorrentes descobrirem e terem fácil acesso às nossas fontes de compra. Assim não se prospera. Portanto, é uma disciplina como essa que uma nação como a nossa deve observar.

Créditos não devem deixar de ser dados para algumas empresas e entidades angolanas que já fazem o esforço de regerem as suas actividades segundo princípios semelhantes, mas é preciso que a grande maioria dos agentes económicos os observe também. Para que não nos tornemos numa nação de eternos meros revendedores, sem possibilidades de prosperar, devemos adoptar as boas práticas. É preciso aprendermos com os fenícios. É preciso aprendermos com exemplos simples. É preciso aprendermos com a história.

Foto: Tom Fisk


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