Às Vezes, Sinto Vergonha do “Mendonça”

Às Vezes, Sinto Vergonha do “Mendonça”

Por: José Luís Mendonça

O nome que me registaram com ele é nome historicamente legal. Com ele, percorri mais de meio século civil, ganhei prémios de Literatura e Jornalismo e é esse nome “De Mendonça” que me gritam publicamente, enquanto “José” me é sussurrado pela esposa na reserva da intimidade.

Acontece, porém, que, às vezes, quando leio nas redes sociais notas sobre escritores africanos de vanguarda, sinto vergonha de me chamar Mendonça.

Ainda há dias, voltei a ler sobre o sucesso do romance Meio Sol Amarelo, da nigeriana Chimamanda Ngozi. Este nome causa-me um certo frenesi espiritual. Quando o pronuncio, sinto o espírito bantu bater asas no céu da minha boca.

O mesmo aconteceu quando li O Sol das Independências Africanas, de Ahmadou Kourouma, escritor da Côte d’Ivoire. Este romance deu cabo da minha calma narrativa. Ensinou-me a mergulhar na acção com um fôlego de espadeirar os raios do sol.

Pronunciem ainda este nome: Ngugi wa Thiong’o. Escritor queniano, autor de Um Grão de Trigo, escreveu inicialmente em inglês e agora só conta estórias na língua-mãe..

Quando leio nomes como Noviolet Bulawayo, do Zimbabwe, a primeira mulher negra africana a ser nomeada para o Man Booker Prize. Ah, como eu gostaria de ler, pelo menos, um romance desta autora! Infelizmente, nunca circulou em Angola nenhuma obra sua.

Quando leio nomes como Imbolo Mbue, dos Camarões, autor de Aqui Estão os Sonhadores, eleito pelo New York Times um dos melhores livros de 2016, ou Chigozie Obioma, da Nigéria, autora de Orquestra de Minorias, ou ainda o nome do jovem JK Anowe, ganhador do Prémio de Papel Frágil 2017 em Poesia.

Também sinto a mesma sensação divina de ser africano ao pronunciar os nomes dos meus amigos moçambicanos, Mbate Pedro, ou Ungulani Ba Ka Kosa.

Há dias, “conheci” Tsitsi Dangarembga, autora e cineasta do Zimbabwe. O seu romance, Nervous Conditions, o primeiro a ser escrito em inglês por uma mulher negra do Zimbábue, foi apontado como um dos 100 melhores livros que mudaram o mundo. Dambudzo Marechera, romancista zimbabuano de curta carreira, escritor de contos, dramaturgo e poeta, deixou-me triste. Não devia morrer tão cedo. Mas é assim a vida.

Hoje mesmo, “conheci” mais um escritor queniano, Meja Mwangi, considerado, ao lado de Ngugi wa Thiong’o, um dos mais importantes escritores do seu país.

Jack Mapanje é um escritor e poeta do Malawi preso em 1987 por ter uma colecção de camaleões e deuses, uma crítica velada ao presidente Hastings Banda.

Infelizmente, no meu bilhete de identidade angolano, está estampado um nome bem comprido e todo português. Tenho a plena consciência de que este nome me foi destinado pelo Encontro de Civilizações, por aquilo que se chama transculturalismo. Por isso, falamos português para o Mundo.

Contudo, o meu corpo mestiço deseja ser chamado na língua da minha mãe, por outro nome, por exemplo, Kumbi dya Mbundu, nome invocado pela tradição da minha terra, o Golungo Alto. Um nome que me leve a sentir o mesmo frenesi espiritual, quando leio o nome de Chimamanda Ngozi. Um nome que faça o espírito bantu bater asas no céu da minha boca.

É verdade, às vezes, quando leio nas redes sociais os belos nomes  de confrades meus africanos, sinto vergonha de me chamar Mendonça.


LEIA O LIVRO DE JOSÉ LUÍS MENDONÇA

Editora Acácias


 

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