TE NASCI

TE NASCI

Por: Fernando Kawendimba

 

Mês de Janeiro. Dia primeiro. A mãe de Kongangela anunciara-nos o amanhecer. Nós tínhamos despertado com o estrondoso, desarmónico e arrítmico pedido de licença da velha. As batidas na porta do nosso quarto ecoam e amplificam-se nos nossos adormecidos ouvidos. Quis eu atender a sogra que me aconteceu na vida conjugal que me escolheu.

– Deixa-a comigo, marido. – A minha mulher dispensou-me, para o meu alívio. – Hoje ela vai-me nascer de novo.

A velha passara a quadra festiva connosco. Aliás, os últimos fins de anos eram com ela em nossa casa. A preocupação principal da filha era que, ano após ano, a velha trazia a sua versão mais imprudente e insensata. É caso de consulta psicológica ou psiquiátrica? Ela jurara na sua altivez que jamais colocaria a sua mente num consultório: “tenho saúde para sete gerações”, dizia-nos.

Em nome da confidencialidade, Kongangela atraiu a mãe à sala: “fala, mamã”!

– Se na vida eterna também há isso de castigos e queimaduras, quando eu morrer, enterre-se também a minha alma, por favor. – Tagarelava Ndatembo.

Kongangela recusou-se a ouvir aquele desejo. Escusou-se a cumprir o pedido. Recolheu recursos humanos, na alma racional, para a manutenção da calma.

– Achas mesmo que te estou a pedir? – A velha bradava exaltada. – Isso é um mandamento da lei de mãe. Cumpra-se!

– Se gritares comigo, novamente, ponho-te fora desta casa, mamã!

– Eu não saio. Eu é que te nasci. A casa é tua. Tu és minha. A casa é minha.

– Eu é que te nasci? Tu deste-me à luz, mamã: eu nasci. – Dizia assegurando-se que não deixava de honrar a mãe. – E essa casa é do meu esposo também.

– Que arrogância da tua parte, filha!

Ndatembo reacendia a discussão até engasgar-se com as pragas que vomitava:

– Assim fiz mal de te nascer? Sabias que até nos dias de hoje sinto a dor do parto? E se eu te abortasse?

Somente a própria tosse calou as suas palavras. Socorreu-se com uns goles de água e desespero. Segundos depois, adormeceu de boca aberta, sentada onde o dormir a flagrou. Quando eu morrer, enterre-se também a minha alma? Porque a mãe disse isso? Ocorreu-lhe acordar a velha para tornar aquele conteúdo mais explícito. Decidiu esperar. É que, muitas vezes, quando Ndatembo estivesse acordada, o mundo à sua voltava ficava desordenado.

Não tardou: a velha estava deportada do sono. Desperta, esperta, caiu à realidade com toda a sua alma essencialmente irascível. Ou não?

Falando em indignação, a velha sempre negava, odiava e não superava um facto: a sua filha não era casada com um homem branco e rico. Sobretudo, rico. Ela mesma declarava abertos concursos públicos para que empresários europeus fossem seus genros. Esse assunto entristecia o coração de Kongangela, até às profundezas. As ácidas coisas azedaram ainda mais quando a filha se casou com alguém que não reunia os quesitos exigidos pela anciã. Ambas ficaram muito tempo sem se calar nem se falar. Viviam indiferentes uma com a outra. Sobretudo Ndatembo, que sempre teve dificuldades de encaixar os passados seus nos devidos lugares e endereços, datas e horários.

Na qualidade de tempo, o presente não era prenda frequente nas mãos das intuições da idosa. Todavia, afinal acordou lembrando-se nada do perfil da sua mais própria filha, aquela suficientemente única e unigénita. Ou fingia?

– Anabela, aqui em Lisboa, em oitenta e oito, quando te nasci, tu tinhas os olhos azuis mais bebé, o olhar mais moreno que a Praia Morena de Ombaka.

Até que Kongangela a actualizasse que não se chamava Anabela, que nascera em Angola, perto do fim da primeira metade dos anos noventa e que, enfim, sempre fora uma pessoa feminina integralmente preta, Ndatembo já se acomodava e incomodava a filha num nível provocador mais elevado.

– Quero dizer ao meu genro que me enterre a alma quando eu morrer. Chama-o. – Já era notável que tinha a memória salva e sã. – Tu não me entendes.

Ndatembo estreou uma séria série de choros e lamentações. Afinal batera a porta do nosso quarto com a força do medo que lhe suscitara o pesadelo que teve: viu-se num inferno qualquer, severamente castigada e assada, a cumprir prisão perpétua pelo conjunto das suas más obras na terra. Ainda estava aterrorizada. Queria fazer o bem e as pazes. Depressa, para fugir da angústia.

– Filha, eu sempre falei que a felicidade nunca se deixará alcançar pelos viventes, mas quem à busca pode ter às suas descartáveis sósias. Também dizia que à nossa árvore genealógica secaria quando te casaste com quem prometeste ser fiel até que a vida expirasse. Agora devo admitir os meus erros: o amor é o gerador de todas as energias positivas que nos podem iluminar o caminho para a felicidade. Estás bem porque amas e és amada gratuitamente.  

– Mãe, amealha as tuas palavras. – Disse com mais kandandu que palavras.

– É assim que me mandas calar a boca, Anabela? Abraça-me mais então.

Kongongela voltou a emendar:

– Anabela não é o meu nome. Não posso mais te ver a chorar, mãe: admito que tu me nasceste. Pronto!

– Ewá! Agora chama o meu genro para dois pedidos: de desculpas e que enterre a minha alma, quando chegar a minha hora! – E a parte que mais gostamos de ouvir: – devo reconhecer que ele é um homem bom.

Às vezes o ano novo converge com vida nova e o bom ano com vida boa. Esse início de ano é um exemplo disso.

 


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Fernando Kawendimba


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