UM LOBITANGA EM BENGUELA

UM LOBITANGA EM BENGUELA

Por: Fernando Kawendimba

No fundo do quintal dos meus avós, sob as asas de árvores que davam ares puros, flores, frutos e sombras, eu brincava com Uya. Amiga de perene infância, a pessoa com quem eu mais gostava de ficar era ela, albina única num bairro desigual. Ela não conseguira fazer mais amiguinhos, porque os adultos do bairro proibiam as suas crianças de se aproximarem dela: o albinismo é contagioso e terminal, injuriavam eles.

O meu papá não concordava, tão-pouco discordava. Deixava acontecer, indiferente.

Eu podia gostar mais de Uya do que eu me amava a mim mesmo.

Certos dias, eu renunciava a companhia de humanos. Entretanto, eu não pretendia ficar sozinho, porque isso implicaria permanecer comigo, que também sou um humano. Naquelas ocasiões estranhas, ela aparecia, pedia-me licença para brincar em parceria. Daí eu corrigia-me: se a pessoa humana fosse ela, eu já queria a sua presença para sempre.

Numa tarde sabatina, brincávamos nós aos animais suínos. Os nossos corpos untados de sujidade, as nossas mentes cheias de felicidade. Coisas de criança. Só mesmo um adulto para não ver pureza na poeira que havíamos levantado:

– Chega: vão já se lavar! – Palavras de ordem pronunciadas pelo meu papá. – Parecem um casal de porquinhos, ó crianças!

Mbambi I, o meu papá, era no mínimo uma pessoa dupla. Ou duplicada. Mãe e pai: meu pai era meus pais. Segundo os meus avós, minha mãe morrera para que eu vivesse. No dia em que vim ao mundo, ela foi ser anjo e estrela para me guiar e iluminar nessa notívaga terra. Os meus avós diziam muitas vezes ao meu coração: as mães do Homem são mãos de Deus; mães humanas são mãos divinas. A versão do meu papá era mais seca e fresca: a minha mãe morrera porque pelo trabalho do parto viu-se que a sua idade não era suficiente para dar à luz a uma criança. Partiu daqui aos seus catorze adolescentes anos de idade. Mbambi I era dois anos mais-velho que ela. Ele acusava-me de o ter amadurecido precocemente. Volvidos oito anos desde o óbito, considerava o seu luto ainda normal. Acreditava ele que a minha mãe, lá no céu, estará muito honrada por mim e orgulhosa dele. Eu me deixava mover pela mesma crença.

Voltando ao começo da história: Uya usufruíra a ocorrência para antecipar o seu asseio pessoal. Motivo especial: a sua mana e a noite chegariam à casa no mesmo horário. Mesmo sem conhecer essa irmã mais-velha de Uya, eu já aprendera a gostar dela, principalmente porque prometera trazer-me, como oferta, letras de Filipe Zau e músicas de Filipe Mukenga. Minha amiga despediu-se do meu pai e de mim e foi a correr para à sua casa. Senti as imortais saudades da sua corpórea presença.

A obediência era das primeiras modalidades desportivas que eu aprendera a praticar com o meu papá. Queria eu continuar a brincar de ser feliz e livre, natural e simples com a minha amiga. Obstáculo: a minha vontade não fora convocada. Por bem ou não, autoridade e autoritarismo papá não confundia, nunca: fundia-os em palavras e atitudes com a conivência do seu pensamento.

– Temos de ir à Catumbela. – Anunciou-me essa boa nova enquanto me conduzia pela mão para o interior de casa. – Agora prepara-te: vais comigo!

Os meus destinos frequentes eram a escola, a paróquia, a padaria. Tudo pertinho, quando fosse a um, chegava simultaneamente aos outros lugares: o quintalão era o mesmo. Ir à Catumbela era sair da minha zona de desconforto. Boa! Mas o que havia a fazer na Catumbela, tão perto da cidade de Benguela, duas localidades que o meu pai recusava pôr os pés? Mbambi I dizia que Lobito lhe bastava para bem nascer, viver e viver após a morte. Animado, aprumei-me antes que uma proposição contrária lhe surgisse à cabeça. Já aconteceu mil e novecentos e cinco vezes, segundo as minhas contas em dia.

Subimos o táxi e já íamos ouvindo a voz do povo que reclamava irritadiço:

– Se o governo voltar a uivar e tratar o povo como cordeiro, o povo não vai balir nem nada. – Berrava um senhor, espumando o seu discurso em umbundu. – Ao invés de voltar a sacrificar-se, vai sacrificar esses lobos todos.

– Se esticarem mais a corda, o povo vai oferecer esse governo ao inferno como sacrifício de horror. – Praguejava uma idosa com um terço no lugar de pendurar colar. – O povo não vai zumbir, vai picar, não vai falar, vai agir.

Um kota que se apresentou como antigo combatente, atacou com um sinal vermelho:

– Mansos manos cordeiros, uma loba está a ser imolada, mas somos nós a carne predileta da selvagem e numerosa alcateia que a configurou.

O motorista baixou o volume do som do rádio e conduziu a sua opinião aos ouvidos dos passageiros e cobrador:

– Se a pessoa deu corpo ao assalto à dignidade e aos direitos do próprio povo é porque não tem alma. Por isso, não pode e nunca deverá descansar em paz.

Eu não percebia sequer uma vogal, consoante ao que estavam a falar. Não o umbundu: o conteúdo. Quando perguntei ao meu papá, confidenciou-me um despacho ao ouvido: meu filho, são apenas bocas exalando o mau hálito das políticas que os corações se acostumaram a eleger; não te metas só lá, filho! Finalmente o povo da aldeia angolana perdera o medo e parara de fingir que ignorava que o soba, a sua filha, outros filhos e enteados políticos seus frequentemente furtavam o bem e os bens do povo da aldeia angolana.

Uns subindo, outros descendo, aquela conversa ficara oca, silenciada, vazia.

Lobito ficara às nossas costas, bem atrás no mapa e no relógio. Catumbela já se manifestava na nossa acuidade visual inteira. No momento, o papá preparava-se para pagar e descermos na paragem seguinte. Quando o táxi ficou parado, já tinha disparado uma mudança de ideias: vamos à Benguela. Aquele anúncio assustou-me: a sério!? Não jurara que jamais iria à Ombaka?

– Papá, Lobito já não tem sido o único lugar de Benguela que te baste…

– Cala-te, filho! – Falou-me numa voz humilde, kambuta, mansa, mas sem orientar o olhar e resto do rosto a mim. – Sabe que há lei sem execução.

Eu sabia que sabia que a dica normativa era: não há lei sem exceção. Quando eu me perguntava, reparei que uma senhorita entrava no táxi e o meu pai a acolhia de boca, alma e olhos abertos. Segundos antes da entrada da moça, chegava o seu aroma extensivamente ostensivo aos olfatos da gente. Mbambi I indicou-lhe o lugar vazio à sua esquerda, perto do seu coração que até então só amava a minha mãe bendita e falecida. Para o meu papá todas as outras eram bandidas entre as mulheres. Tudo indicava que encontrara a excepção.

Papá? Apaixonado? Se sim, era aquilo um mal composto ou simples? Talvez, nenhuma das duas opções. O facto era que os recém-conhecidos conversavam com as bocas de beijar e se deixar beijar. Aquelas não eram as de falar. E dialogavam como dois reconhecidos amigos que pularam a etapa da estranheza com destreza. Pelo menos ela lembrava-me Uya pela semelhança.

– Esse menino é meu filho. – Apresentou-me o meu papá como se estivesse a erguer um troféu. – Mbambi II.

A moça sorriu, passou-me a mão pela cabeça; passeou o seu olhar pela minha cara e cabeça toda como se me desenhasse uma coroa de carinhos. Se o papá a quisesse e pudesse conquista-la, honestamente, eu já a tinha aprovado.

Ia eu à Catumbela por motivos alheios ao meu conhecimento imaginativo. A seguir, seguia à Benguela emotivo e alheio aos motivos de Mbambi I. Pela interpretação que eu fazia àquele contexto, um romance romântico estava a ser escrito certamente nas curvas e ininterruptas linhas do tempo. O meu pai respondia à questão da moça sobre a experiência de ser pai tão jovem, tão solteiro e tão viúvo. Depois do papá ter exagerado na modéstia, ela aligeirou:                             

– Ninguém é maior que ninguém. Porém, pessoas indispensáveis para o desenvolvimento das crianças e das sociedades são aquelas que se encarregam de as educar. – E abrindo mais o sorriso para nós, disse ao papá: – parabéns!

Raras vezes eu vira o papá atingir aquele grau tão alto de alegria. Tive a certeza que o orgulhoso lobitanga do meu pai enfrentaria Benguela por amor àquela mulher. Por mim, aquilo valeu a pena de liberdade perpétua.

Para kuyar mais, os ouvidos meus ainda ouviram-na confidenciar ao meu pai:

– Se não se importam, voltamos juntos ao Lobito: eu vou somente à Benguela para buscar livros e discos dos Filipes Zau & Mukenga, respectiva e respeitosamente.

Eram para quem, perguntei-me?

– São para um amiguinho da minha irmãzinha que vou conhecer ainda nesse dia. – Continuou ela o seu discurso ordenado e belo. – Não devo demorar.

Era ela, a mana da Uya? Se sim: e se fosse também ela a futura esposa do meu pai? Seria eu um sortudo: ela não seria a substituta da minha mamã. Simplesmente, sua digníssima sucessora.

O lobitanga do meu pai fora à Benguela por uma mulher, excelente excepção à da sua lei.

Foto: Jéssica Branco

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Fernando Kawendimba

 

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